Geraldo de Barros e a fotografia

O Instituto Moreira Salles apresenta em sua sede do Rio de Janeiro a exposição Geraldo de Barros e a fotografia. Com mais de 300 obras, é a maior exposição do designer, pintor e fotógrafo brasileiro Geraldo de Barros (1923-1998) já realizada no Rio de Janeiro.

A mostra resgata aspectos históricos e o caráter experimental da obra fotográfica do artista, enfocando sua relação com as gravuras e pinturas realizadas entre os anos 1940 e 1990. A curadoria é da pesquisadora Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS.

Geraldo de Barros e a fotografia é organizada em três núcleos. O primeiro deles aborda a série fotográfica Fotoformas, produzida entre os anos 1940 e 1950. São mostrados exemplos das primeiras fotografias e de desenhos feitos pelo artista no imediato pós-guerra, período em que ainda estava envolvido com uma pintura gestual de influência expressionista, monotipias que testemunham o início de seu envolvimento com a arte abstrata e pinturas concretas realizadas na década de 1950, quando o artista era membro do grupo Ruptura. Essa produção é mostrada lado a lado com as diversas experimentações fotográficas realizadas por Barros em Fotoformas: detalhes que enfatizam a estrutura geométrica de objetos do cotidiano; imagens borradas; solarizações; fotografias realizadas a partir de negativos pintados e riscados com instrumentos de gravura; fotografias abstratas realizadas a partir de múltiplas exposições do mesmo negativo; montagens de negativos etc.

Geraldo de Barros produzia fotografia, gravura e pintura de forma concomitante, e as diversas técnicas faziam parte de um mesmo processo criativo. Com o intuito de aproximar o público desse rico processo de trabalho, são mostrados exemplos de negativos riscados pelo artista, bem como folhas de contatos originais que evidenciam as diferentes formas de intervenção na fotografia feitas pelo artista. Nesse núcleo, o visitante encontra também um grande número de cópias vintage, oriundas de diversas coleções institucionais e privadas, que evidenciam as preocupações formais do artista ao ampliar suas imagens.

Com o objetivo de enfocar os modos originais de exibição das fotografias de Geraldo de Barros, a primeira sala da exposição é dedicada à exposição Fotoforma, que o artista realizou no Masp, ainda localizado na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo, em 1951. São mostrados documentos fotográficos, notícias e críticas sobre aquela que foi a primeira exposição fotográfica do artista.

O segundo núcleo da exposição é dedicado às pinturas realizadas pelo artista nos anos 1960 e 1970. Assim como outros pintores concretos de sua geração, nessa época, Geraldo de Barros se aproximou da Pop Art e da chamada Nova Figuração, que retomava a arte figurativa no contexto da cultura de massas. Ele pintava sobre fragmentos de outdoors publicitários, apropriando-se das fotografias usadas nos cartazes. Ao destacar o aspecto grotesco e invasivo da propaganda, as obras assumem um forte teor crítico.

A terceira parte da exposição aborda a série Sobras, realizada em seus últimos anos de vida, um momento em que o artista se encontrava parcialmente paralisado por uma série de isquemias cerebrais que sofreu a partir dos anos 1970. Após anos afastado da fotografia, Geraldo de Barros volta-se para seu arquivo de fotos de família guardado ao longo de décadas. Com a ajuda de uma assistente, ele corta, risca e monta pequenos fragmentos de negativos 35 mm sobre placas de vidros. 

Geraldo de Barros e a fotografia mostra pela primeira vez o conjunto completo de 268 colagens de negativos e positivos sobre vidro realizado por Geraldo de Barros no fim dos anos 1990, além de cerca de 70 fotografias ampliadas a partir dessas pequenas colagens. Dessa maneira, a série Sobras será apresentada como um intenso e fértil processo de trabalho, no qual, mais uma vez, Geraldo de Barros se distanciou do caráter documental da fotografia, manipulando-a e transformando-a de diferentes maneiras. 

A exposição e o catálogo que a acompanha são frutos de uma parceria entre o Instituto Moreira Salles e o Sesc/SP, a instituição brasileira detentora da maior coleção fotográfica do artista e que apresentará Geraldo de Barros e a fotografia em 2015.

Exposições

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca - Classificação livre
Visitas monitoradas para escolas: agendar pelo telefone (21) 3284-7400.

Mais detalhes
  • Função diagonal, 1952. Esmalte sobre Kemlite 60 x 60 cm. Coleção particular.  Fabiana e Lenora de Barros


  • They Are Talking, 1964. Pintura a óleo, colagem e nanquim sobre aglomerado 77 x 110 cm. Coleção particular.  Fabiana de Barros


  • Exposição Fotoforma, Museu de Arte de São Paulo, janeiro de 1951. Arquivo Geraldo de Barros, Genebra, Suíça.  Fabiana de Barros


  • Exposição Fotoforma, Museu de Arte de São Paulo, janeiro de 1951. Arquivo Geraldo de Barros, Genebra, Suíça.  Fabiana de Barros


  • Sobras (vidros), São Paulo, Brasil, 1996-1998. Colagem em vidro 9 x 12 cm. Coleção Fabiana de Barros.  Fabiana de Barros


  • Cenas da batalha lacustre, 1950. Monotipia em cores sobre papel 25,3 x 33,9 cm. Coleção Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Doação MAM-SP.  Fabiana e Lenora de Barros


  • Máscara africana, São Paulo, Brasil, 1949. Fotografia (desenho sobre negativo com ponta-seca e nanquim) 37 x 26,3 cm. Coleção particular.  Fabiana de Barros


  • Fotoforma, São Paulo, Brasil, 1950. Fotografia (superposição de imagens no fotograma) 40,6 x 30,5 cm. Coleção Sesc São Paulo.  Fabiana de Barros


  • Fotoforma, São Paulo, Brasil, 1949. Fotografia (cópia a partir de negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro) 40,6 x 30,5 cm. Coleção SESC São Paulo.  Fabiana de Barros


  • Sem título, Itanhaém, Brasil, c. 1947. Fotografia 30,5 x 40,6 cm. Coleção Sesc São Paulo.  Fabiana de Barros


  • Sobras, 1996-1998. Fotografia 24 x 30,5 cm. Tiragem em 1996-1998. Coleção Sesc São Paulo.  Fabiana de Barros


  • Sobras, 1996-1998. Fotografia 24 x 30,5 cm. Tiragem em 1996-1998. Coleção Sesc São Paulo.  Fabiana de Barros


Lançamento do livro Geraldo de Barros e a fotografia 

31 de janeiro de 2015, sábado, após a conversa com Paulo Sergio Duarte  |  Local: IMS-RJ

Para celebrar a chegada da coleção de Geraldo de Barros, o IMS lança, em parceria com o Sesc São Paulo, o livro Geraldo de Barros e a fotografia, que acompanha a exposição homônima em cartaz no IMS-RJ. A publicação é mais que um catálogo da mostra. Saiba mais sobre o lançamento do livro Geraldo de Barros e a fotografia.


Exibição filme Sobras em obras

Até 22 de fevereiro  |  Local: IMS-RJ

O documentário de Michel Favre será exibido gratuitamente no cinema do IMS-RJ enquanto a exposição estiver em cartaz. Veja dias e horários de exibição de "Sobras em obras".


Conversas na galeria


11 de dezembro de 2014, quinta, às 17h  |  Local: IMS-RJ
Com Felipe Scovino, crítico de arte e professor da Escola de Belas Artes da UFRJ.
 
31 de janeiro de 2015, sábado, às 17h  |  Local: IMS-RJ
Com Paulo Sergio Duarte, crítico de arte e professor da Universidade Candido Mendes.
 


Abertura da exposição no IMS-RJ

18 de outubro de 2014  |  Local: IMS-RJ
16h: Exibição do filme Sobras em obras, de Michel Favre.
18h: Visita guiada com a curadora Heloisa Espada e a artista Fabiana de Barros.
 

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca - Classificação livre
Visitas monitoradas para escolas: agendar pelo telefone (21) 3284-7400.

Mais detalhes

Geraldo de Barros produziu fotografias em dois momentos-chave de sua trajetória. Entre 1946 e 1951, num período de formação, paralelamente à produção de pinturas, desenhos e gravuras, ele vivenciou um intenso processo de criação denominado Fotoformas. O segundo momento corresponde a seus dois últimos anos de vida, de 1996 a 1998, quando, com a ajuda de uma assistente, produziu a série Sobras.

A Sala 1 da exposição é dedicada às Fotoformas.

Exposição Fotoforma, 1951, Masp

Geraldo de Barros. Exposição Fotoforma, Masp, janeiro de 1951 - Arquivo / Archive Geraldo de Barros, Genebra, Suíça / Geneva, Switzerland
 

Geraldo de Barros. Autorretrato na exposição Fotoforma, Masp, janeiro de 1951 - Arquivo / Archive Geraldo de Barros, Genebra, Suíça / Geneva, Switzerland

De 2 a 18 de janeiro de 1951, Geraldo de Barros realizou Fotoforma na pequena sala de exposições temporárias do Museu de Arte de São Paulo (Masp), então instalado no primeiro andar do edifício dos Diários Associados, na rua Sete de Abril, no centro de São Paulo. Os objetos e os painéis que compuseram a mostra se perderam, de modo que o único acesso ao seu conteúdo é o conjunto de registros fotográficos aqui apresentado, quase todo de autoria de Geraldo de Barros.

Algumas obras foram fixadas diretamente em tubos metálicos que ficavam próximos às paredes ou soltos no espaço. Outras foram apresentadas em grandes painéis geométricos. Havia também fotografias recortadas, de formato irregular, apoiadas em pequenos pedestais e exibidas sobre totens, como se fossem esculturas. A preponderância da geometria e o aspecto geral da montagem testemunhavam o interesse de Geraldo de Barros pela arte construtiva. No entanto, quando observadas individualmente, as imagens revelavam uma profusão de experimentações técnicas e soluções formais, como se o artista estivesse, na prática, procurando se aproximar de diversos caminhos da arte moderna por meio de suas Fotoformas.

Os cilindros metálicos que sustentavam as obras eram parte do primeiro projeto museográfico desenvolvido por Lina Bo Bardi para a pinacoteca do Masp. Soltas no ambiente e percebidas simultaneamente ao espaço em torno, as obras não se confundiam com janelas: exibiam sua materialidade, seu estatuto de objeto. Em 1950, Lina Bo Bardi reformulou o modo de exibição do acervo do Masp e, a partir daí, os cilindros passaram a fazer parte do mobiliário utilizado para a montagem de mostras temporárias.

Fotoforma foi uma das primeiras exposições a exibir fotografias como arte em museus brasileiros. Apesar de breve, ela representa um importante passo no processo de reconhecimento da fotografia nos espaços das artes, bem como um marco na história do abstracionismo no país.

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca - Classificação livre
Visitas monitoradas para escolas: agendar pelo telefone (21) 3284-7400.

Mais detalhes

Sem título, Itanhaém, Brasil, c. 1947. Fotografia em papel de gelatina/prata / Gelatin-silver print. Tiragem em 2007 / Printed in 2007. Acervo / Archive Sesc de Arte Brasileira

 

Sem título, 1948. Nanquim sobre papel / India ink on paper. Coleção/ Collection Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Doação do artista / Donated by the artist

 

Máquina de escrever (homenagem a Homero Silva), São Paulo, Brasil, c. 1949. Fotografia em papel de gelatina/prata / Gelatin-silver print. Tiragem realizada pelo artista em 1950/ Printed by the artist in 1950. Coleção / Collection Lenora de Barros e Marcos Augusto Gonçalves

 

Duas mulheres, 1949. Água-forte sobre papel / Etching on paper. Coleção / Collection Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Doação do artista / Donated by the artist

 

Geraldo de Barros aprendeu a fotografar por volta de 1946 com o amigo Athayde de Barros, seu colega nas aulas de desenho na Associação Paulista de Belas Artes e no ateliê do pintor Yoshiya Takaoka. Pouco tempo depois, Geraldo e Athayde montaram um pequeno laboratório no ateliê do Grupo 15, do qual participavam também Takaoka, Antônio Carelli, Flavio Shiró, Tomoo Handa e Tamaki, entre outros.

Nesses primeiros anos de formação, Geraldo de Barros estava voltado, principalmente, para o aprendizado de pintura e gravura, que estudou sob orientação de Livio Abramo, por volta de 1948. Suas primeiras fotografias abordam os temas trabalhados por ele nas outras técnicas, sobretudo naturezas-mortas, retratos e autorretratos. Em 1949, o artista se associou ao Foto Cine Clube Bandeirante, o principal espaço em São Paulo de debate e ensino sobre fotografia na época.

Os trabalhos do fim dos anos 1940 demonstram seu interesse um tanto difuso por aspectos gerais do Expressionismo, do Cubismo e do Futurismo. Em certos momentos, o mesmo assunto é abordado em mais de uma técnica, como é o caso da tentativa de representar o movimento dos corpos. Foi sobretudo por meio da fotografia que o artista passou a identificar estruturas geométricas e abstrações em objetos e cenas do cotidiano.

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca - Classificação livre
Visitas monitoradas para escolas: agendar pelo telefone (21) 3284-7400.

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Fotoformas, gravura e arte concreta

Fotoforma, São Paulo, Brasil, c. 1949. Fotografia em papel de gelatina/prata (cópia a partir de negativo recortado, prensado entre duas placas de vidro) / Gelatin-silver print (copy from cut negative, pressed between two glass plates). Tiragem em 2006 / Printed in 2006. Acervo / Archive Sesc de Arte Brasileira

 

Em 1949 e 1950, Geraldo de Barros intensificou suas pesquisas fotográficas, ao mesmo tempo em que prosseguia com os trabalhos em pintura e gravura. Na série Fotoformas, as fronteiras entre essas técnicas são imprecisas. Num processo de trabalho altamente experimental, o artista passou a desenhar e a gravar diretamente no negativo garatujas com nanquim e ponta seca, um instrumento usado para fazer gravuras. Ele arrumava objetos para serem fotografados, fazia fotogramas, cortava e montava pedaços de filmes e realizava diversos cliques sobre o mesmo negativo, criando composições geométricas que precedem suas pinturas concretas realizadas a partir de 1952. Mesmo as fotos diretas, feitas sem intervenções posteriores, explicitam o interesse em reconhecer formas abstratas – geométricas ou não – em objetos e cenas do cotidiano. Essas experimentações estão pautadas, em alguma medida, nas obras das vanguardas europeias da década de 1920, embora alguns dos procedimentos de Geraldo de Barros sejam incomuns mesmo naquele contexto.

Negativos e contatos

 

Temos aqui exemplos das diferentes intervenções de Geraldo de Barros sobre negativos fotográficos: gravações, desenhos com tinta nanquim, colagens feitas com filmes montados em pequenos sanduíches de vidro e composições realizadas a partir de múltiplas exposições.

Os contatos revelam os diferentes cortes realizados pelo artista no momento da ampliação, evidenciando que, para Geraldo de Barros, a imagem fotográfica era, sobretudo, uma matéria-prima que poderia ser manipulada e transformada das mais diversas maneiras.

 

Fotos gravadas

São evidentes as correspondências entre as pesquisas de Geraldo de Barros no campo da gravura e da fotografia. Em ambas o artista realiza seus desenhos a partir do que lhe é sugerido por manchas no papel ou pelos objetos e grafismos registrados pela câmera. Os riscos gravados ou pintados no negativo eram uma soma, não se confundiam com as manchas e linhas dos próprios objetos fotografados, tornando explícita a artificialidade do procedimento e, consequentemente, o caráter plano e artificial da própria fotografia. É notável também o contraste do aspecto geral dessas experiências com as Fotoformas geométricas, realizadas em paralelo. Elas evidenciam a importância do artista suíço Paul Klee na formação de Geraldo de Barros, bem como seu interesse por desenhos de crianças e indivíduos com distúrbios mentais, que caracterizou boa parte da produção artística europeia no pós-guerra.

Fotografias geométricas e pinturas concretas

Função diagonal, 1952. Esmalte sobre Kemlite / Enamel paint on Kemlite. Coleção / Collection Ricardo Rego

 

Fotoforma, São Paulo, Brasil, c. 1950. Fotografia em papel de gelatina/prata (superposição de imagens no fotograma) / Gelatin-silver print (multiple exposure). Tiragem realizada pelo artista em 1977 / Printed by the artist in 1977. Coleção / Collection Fernanda Feitosa e Heitor Martins

 

Geraldo de Barros trabalhava com uma câmera Rolleiflex, que lhe permitia fotografar várias vezes sobre o mesmo negativo. Ele registrava portas, janelas e outras estruturas em contraluz, deslocando levemente a câmera e girando-a a cada disparo, de modo a variar o tamanho e a posição das formas no quadro. A contraluz radical eliminava detalhes e texturas, dando a ver somente formas geométricas superpostas. Essas obras representam os poucos casos em que o artista mantinha a composição original do negativo, sem reenquadramentos posteriores; denotam grande capacidade de pré-visualização da imagem e de abstração das formas da realidade. Como se estivesse fotografando a própria luz, o artista cria uma imagem com múltiplas possibilidades de leitura, em que prevalece a sensação de movimento e giro.

A arte concreta, que engajou diversos artistas no Brasil durante os anos 1950, propunha a realização de obras de arte a partir de um projeto. Elas deveriam ser executadas por meios mecânicos, para que pudessem ser reproduzidas em série, como uma peça de design. As pinturas de Geraldo de Barros aqui mostradas são feitas com régua e compasso, por exemplo. Parte das Fotoformas geométricas apresentam características da arte concreta: pressupõem a concepção de uma imagem mental produzida posteriormente por meios mecânicos; são dinâmicas, precisas e, nelas, as figuras geométricas não assumem posições definidas de figura e de fundo, alternando-se no plano do quadro.

 

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca - Classificação livre
Visitas monitoradas para escolas: agendar pelo telefone (21) 3284-7400.

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Anos 1960 e 1970

They Are Talking, 1964. Pintura a óleo, colagem e nanquim sobre aglomerado / Oil paiting, assemblage and India ink on plywood
Coleção / Collection Rose e Alfredo Setúbal

 

Tragic Glub Glub, 1966. Pintura a óleo sobre papel colado em aglomerado / Oil painting on paper glued on plywood. Coleção particular / Private collection

 

Por volta de 1964, paralelamente a seu trabalho como designer de móveis, Geraldo de Barros iniciou uma nova série de obras mesclando pintura e colagem a partir de cartazes de propaganda. Sob o impacto da Pop Art norte-americana, o artista passou a agir criticamente sobre a imagem publicitária. Os títulos em inglês − Tragic Glub Glub, They are playing (poker face) −explicitam essa referência e a atitude irônica e sarcástica do artista em relação à cultura de massa. Num primeiro momento, ele recorta ou enquadra cenas de cartazes para depois cobri-las com uma tinta rala, preta ou amarela, que deixa entrever a retícula da imagem impressa em offset. As cenas de casais lembram fotografias de alto contraste. Fisionomias distorcidas e colagens desarticuladas trazem um caráter pernicioso às imagens.

Em 1965, Geraldo de Barros mostrou essa pesquisa na galeria Atrium, em São Paulo, ao lado de obras do amigo Nelson Leirner, com quem dividia um ateliê na época. No ano seguinte, os dois artistas, junto de Wesley Duke Lee, Frederico Nasser, Carlos Fajardo e José Resende, criaram o grupo Rex, que causou impacto no ambiente cultural paulistano com ações irreverentes, exposições de rua e a publicação do jornal Rex Time. Durante um ano, Geraldo de Barros dividiu sua loja de móveis Hobjeto ao meio para abrigar a Rex Gallery and Sons, onde ocorriam as mostras e performances do grupo.

Na década de 1970, o artista inicia uma nova série derivada da anterior. As pinturas ganham em cor e dimensão, pois passam a ser feitas sobre grandes folhas de outdoor coladas lado a lado. As marcas e os personagens escolhidos como tema estão entre os mais populares da época: sabonete Francis, patê Sadia, O Gordo e o Magro, Marlboro, o artista e empresário circense Orlando Orfei. Nessa fase, Geraldo de Barros enfatiza o caráter invasivo e artificial da fotografia publicitária reenquadrando as imagens em primeiríssimo plano. Em 1977, ele mostrou suas pinturas sobre cartazes na individual 12 anos de pintura, 1964 a 1976, no MAM-SP. Na ocasião, em entrevista à Folha de S.Paulo, declarou: “Eu nunca sei, como ser humano, o que está acontecendo realmente, se aquele colorido que a televisão me retransmite é aquilo mesmo em definitivo, mas sei que esses códigos nos são transmitidos querendo estabelecer as coisas que vamos pensar.” Por meio de recursos próprios da publicidade – cores estridentes, grandes tamanhos e foco nas emoções – suas obras escancaram o sentido impreciso e enganoso das imagens, distanciando a fotografia de qualquer efeito de realidade.

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

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Sobras

Em 1979, Geraldo de Barros sofreu a primeira das quatro isquemias cerebrais que, ao longo dos anos, comprometeriam gravemente seus movimentos e sua fala. A partir dessa data, iniciou novas séries de pinturas geométricas, executadas então por assistentes.

Em 1993, a apresentação das Fotoformas no Musée de L’Elysée, em Lausanne, deu início a um amplo processo de revisão de sua obra fotográfica dos anos 1940 e 1950. Como consequência, vieram novas exposições e publicações no Brasil e no exterior, o que o estimulou a trabalhar novamente com fotografia. De 1996 a 1998, mesmo bastante enfraquecido, Geraldo de Barros realizou, com a assistência da fotógrafa Ana Moraes, a série Sobras, a partir do arquivo de negativos e fotos de sua família.

Exibimos aqui o conjunto completo de 249 colagens de negativos sobre placas de vidro realizadas nessa época e 62 fotografias ampliadas a partir delas, além de exemplos de montagens misturando negativos e positivos e de colagens de fotografias recortadas sobre vidro. As Sobras são vistas como um intenso e amplo processo de trabalho, com resultados nem sempre definitivos, pois foi interrompido pelo falecimento do artista.

Nesse trabalho, Geraldo de Barros se apropria de negativos em cores e em preto e branco de fotos feitas ou não por ele e retoma procedimentos realizados anos antes, na série Fotoformas, como colagens, sobreposições, desenhos e gravações em filmes. Os pequenos fragmentos de negativos evidenciam a delicadeza das intervenções, o caráter experimental e a capacidade de pré-visualização dos resultados, característica de sua produção anterior. As cópias em papel revelam a permanência da geometria, mas também imprecisões, sujeiras e falhas que apontam tanto para o processo como para a ação do tempo sobre os materiais. As áreas pretas remetem aos grandes planos cobertos com nanquim e tinta amarela de suas pinturas dos anos 1960.

As Sobras são exercícios gráficos formais que ratificam mais uma vez o descompromisso de Geraldo de Barros com o caráter documental da fotografia. Por outro lado, são o trabalho mais intimista do artista, como se, por meio de trucagens, cortes e apagamentos, ele estivesse editando sua própria memória.

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

De terça a domingo, das 11h às 20h
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Geraldo de Barros por Heloisa Espada e Fabiana de Barros

A curadora Heloisa Espada e a artista Fabiana de Barros, filha do artista, falam sobre a exposição "Geraldo de Barros e a fotografia".

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

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O pintor e designer Geraldo de Barros (Chavantes, SP, 1923 – São Paulo, 1998) produziu fotografias em dois momentos-chave de sua trajetória. Entre 1946 e 1951, num período de formação, paralelamente à produção de pinturas, desenhos e gravuras, ele vivenciou um intenso processo de criação denominado Fotoformas. O segundo momento corresponde a seus dois últimos anos de vida, de 1996 a 1998, quando, com a ajuda de uma assistente, produziu a série Sobras a partir de seu arquivo de fotos de família, guardado durante décadas.

Geraldo de Barros e a fotografia procura apresentar de forma abrangente a relação do artista com a imagem fotográfica. Além de abordar as séries Fotoformas e Sobras como amplos processos de experimentação, a exposição inclui também pinturas realizadas nos anos 1960 e 1970 sobre fotos publicitárias de anúncios e outdoors. As três fases deixam claro que, para Geraldo de Barros, a imagem fotográfica não era uma representação objetiva da realidade, mas um material passível de ser manipulado de diferentes maneiras. Além de fotografar, o artista cortava, riscava e desenhava sobre seus negativos, sobrepunha cenas, fazia fotogramas e montava pequenos fragmentos de filmes sobre placas de vidro, dando origem a imagens que muitas vezes se confundem com pinturas e gravuras.

Embora o artista seja mais conhecido por seu vínculo com a arte concreta, a exposição demonstra que, ao longo de cinco décadas, sua obra não expressou apenas um olhar otimista e confiante sobre a capacidade do homem de agir racionalmente no mundo. Entre as obras dos anos 1940 e 1950, além de abstrações geométricas que denotam clareza, precisão e dinamismo, há riscos e garatujas que aproximam seu trabalho das obras de pessoas sem formação artística – crianças, indivíduos com distúrbios mentais e artistas naïfs. A pintura dos anos 1960 e 1970 tem conotação grotesca, feita muitas vezes sobre imagens em primeiríssimo plano que exacerbam o caráter deturpador e invasivo da propaganda. As Sobras, sua obra de sentido mais intimista, trazem à tona formas inexatas que articulam a memória e seus lapsos.

Sua atitude diante da fotografia sugere que, talvez, para ele, a verdade estivesse apenas na arte concreta, de acordo com a qual os planos, as formas, as linhas e as cores de uma pintura são uma realidade em si e não devem servir à representação de nada. “Um plano é um plano, uma linha é uma linha, nem mais nem menos”, escreveu o artista holandês Theo van Doesburg no manifesto Arte concreta, que propôs o conceito em 1930. A fotografia, pretenso espelho da realidade, além de revelar as estruturas geométricas das coisas, estaria sujeita à manipulação e ao engano, como toda arte figurativa que não explicita seus recursos. Mas, apesar do descompromisso com a especificidade da fotografia como meio, justamente as mais abstratas da exposição revelam um amplo domínio técnico, bem como o profundo interesse de Geraldo de Barros pela criação de imagens por meio da luz.

Heloisa Espada, coordenadora de artes visuais do IMS e curadora da exposição Geraldo de Barros e a fotografia.

Geraldo de Barros e a fotografia
De 18 de outubro de 2014 a 22 de fevereiro de 2015

Local

Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500

De terça a domingo, das 11h às 20h
Entrada franca - Classificação livre
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Exposições

Otto Stupakoff: beleza e inquietude (IMS-RJ)

Otto Stupakoff: beleza e inquietude (IMS-RJ)

Coleção José Ranauro: memória da cidade (IMS-Poços de Caldas)

Coleção José Ranauro: memória da cidade (IMS-Poços de Caldas)

Anri Sala: o momento presente (IMS-RJ)

Anri Sala: o momento presente (IMS-RJ)

Vitrines e fachadas - Dulce Soares (IMS-SP)

Vitrines e fachadas - Dulce Soares (IMS-SP)

Millôr: obra gráfica (IMS-RJ)

Millôr: obra gráfica (IMS-RJ)

Meus caros amigos - Augusto Boal - Cartas do exílio (IMS-RJ)

Meus caros amigos - Augusto Boal - Cartas do exílio (IMS-RJ)

Do arquivo de um correspondente estrangeiro: fotografias de Luciano Carneiro (IMS-Poços de Caldas)

Do arquivo de um correspondente estrangeiro: fotografias de Luciano Carneiro (IMS-Poços de Caldas)

O Paço, a praça e o morro (Paço imperial - RJ)

O Paço, a praça e o morro (Paço imperial - RJ)

Alice Brill: impressões ao rés do chão (IMS-Poços de Caldas)

Alice Brill: impressões ao rés do chão (IMS-Poços de Caldas)

A rua de minha infância (IMS-Poços de Caldas)

A rua de minha infância (IMS-Poços de Caldas)

O olhar que pensa o desenho (IMS-Poços de Caldas)

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No meio do Rio, entre as árvores: a Amazônia de Jorge Bodanzky (MIS-SP)

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Marcel Gautherot – Brésil: tradition, invention (Paris - MEP)

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Rio, papel e lápis (IMS-RJ)

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David Drew Zingg: imagem sobre imagem (IMS - Poços de Caldas)

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Fotografia de domingo (IMS - Poços de Caldas)

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A viagem das carrancas (IMS-RJ)

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Marcel Gautherot – o jubileu no santuário (Tiradentes - MG)

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Claudia Andujar: no lugar do outro (IMS-RJ)

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Rio: primeiras poses (IMS-RJ)

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Alice Brill: impressões ao rés do chão (IMS-SP)

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Face andina - fotografias de Martín Chambi (IMS - Poços de Caldas)

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Emancipação, inclusão e exclusão (IMS - Poços de Caldas)

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Arvoressências (IMS-Poços de Caldas)

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William Eggleston, a cor americana (IMS-RJ)

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Modernidades: fotografia brasileira 1940-1964 (Círculo de Belas-Artes de Madri - Espanha)

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David Drew Zingg: imagem sobre imagem (IMS-SP)

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Geraldo de Barros e a fotografia (Sesc Belenzinho - SP)

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Olhar e desenhar (IMS Poços de Caldas)

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Um passeio pelo Rio (IMS-RJ)

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Face andina - fotografias de Martín Chambi

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Luz, cedro e pedra – Esculturas do Aleijadinho fotografadas por Horacio Coppola

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A fotografia como investigação do ver

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Flieg fotógrafo (MAC - SP)

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O Estúdio Fotográfico Chico Albuquerque

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Em 1964

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Thomaz Farkas: Memórias e descobertas

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Richard Serra: desenhos na casa da Gávea

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São Paulo, fora de alcance
Fotografias de Mauro Restiffe

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Araújo Porto-Alegre: singular & plural

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Jacques Henri Lartigue - A vida em movimento

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Marc Ferrez: mestre da fotografia do século XIX

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São Paulo contemporânea por Cristiano Mascaro

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Panoramas: a paisagem brasileira no acervo do IMS

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Robert Polidori: Fotografias

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Artur Pereira: Esculturas

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Anna Mariani: pinturas e platibandas

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Charles Landseer: Desenhos e aquarelas de Portugal e do Brasil

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As construções de Brasília

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Fred Sandback - O espaço nas entrelinhas

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Video portraits de Robert Wilson

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Saul Steinberg: As aventuras da linha

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Mira Schendel, pintora

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Raphael e Emygdio: Dois modernos no Engenho de Dentro

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William Kentridge: Fortuna

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Lugar nenhum

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