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Unidade - Rio de Janeiro

A casa no bairro da Gávea onde viveram Walther Moreira Salles e sua família se tornou em 1999 a sede do Instituto Moreira Salles. Apresenta exposições, filmes, shows, além de abrigar os acervos de Fotografia, Música, Literatura e Iconografia. A própria casa, marco da arquitetura moderna dos anos 1950, é um atrativo para visitantes.

No texto abaixo, o arquiteto Guilherme Wisnik analisa a residência projetada por Olavo Redig de Campos e que tem jardins de Roberto Burle Marx.

A casa Walther Moreira Salles

Projetada em 1948, a casa do embaixador Walther Moreira Salles (hoje sede do Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro) foi inaugurada em 1951. Situada no alto da Gávea, em um terreno com aproximadamente 10 mil metros quadrados, e em meio a uma exuberante mata atlântica (Floresta da Tijuca), é um autêntico palacete moderno – também herdeiro das tradicionais “casas de chácara” cariocas, como a residência de Raimundo Ottoni de Castro Maya (1954-1957).1 Isto é, trata-se de uma construção monumental, elegante e austera, projetada para abrigar tanto uma família numerosa quanto uma intensa vida social, marcada por frequentes recepções para convidados ilustres.2 Um belo registro dessa vida aparece no filme Santiago (2007), de João Moreira Salles, em que, por intermédio da figura idiossincrática do mordomo argentino Santiago Badagiotti, vemos os bastidores dessa história.

Filho de diplomata, Olavo Redig de Campos, o autor do projeto, havia feito sua formação universitária na Escola Supe­rior de Arquitetura de Roma, e, naquele momento, já dirigia o Serviço de Conservação do Patrimônio do Itamaraty, responsabilizando-se pelos projetos das embaixadas do Brasil no exterior. Portanto, embora menos conhecido do que outros arquitetos modernos cariocas, como Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy, Jorge Machado Moreira, Sérgio Bernardes ou os irmãos Roberto, entre outros, era o profissional ideal para o programa em questão. O projeto paisagístico ficou a cargo de Roberto Burle Marx.

Organizada em torno a um pátio central, a casa apresenta um estudado contraste entre o classicismo italiano de Redig de Campos e o informalismo imprevisto do desenho de Burle Marx. Ou, em outras palavras, entre a civilização e a natu­reza. Envolvido por uma ala íntima, de um lado, e por dependências sociais em outros dois lados e no meio, esse pátio trapezoidal se abre para o jardim com piscina e a vista da montanha, ao fundo, através de uma passagem livre ao final do volume da sala de jantar a oeste. Essa passagem é delicadamente coberta por uma marquise ondulante – elemento muito característico da arquitetura moderna carioca –, que fecha de modo sensual a composição do pátio, envolvido inteiramente por uma elegante colunata externa.

Visando preservar a parte íntima da casa, o arquiteto protegeu a fachada des­sa ala com quebra-sóis verticais móveis, que permitem controlar tanto a incidência solar sobre o corredor de acesso aos quartos, quanto a sua visibilidade aos olhos de visitantes e empregados. Já na área social, as paredes envidraçadas ou vazadas por rótulas e venezianas aludem a um sentido de permeabilidade e movimento, muito propício a um lugar de festas. Com pés-direitos generosos, os ambientes sociais se distribuem ao longo de três corpos edificados, sendo as salas de estar e de jantar, braços menores do volume principal, de acesso, que abriga as dependências de serviço, de um lado, e a chapelaria, o hall de entrada, o cofre-forte, a biblioteca, a sala íntima (conhecida como “sala dos azulejos”) e o terraço, de outro.

Distinguindo-se do conjunto, a entrada principal da casa apresenta uma feição mais clássica do que moderna, com duas altas colunas revestidas de mármore contra o fundo de uma parede pintada em tom vermelho terroso, inspirado na famosa Vila dos Mistérios, de Pompeia.3 O piso é de mármore italiano Rosso Verona e Botticino, compondo um desenho geométrico losangular em vermelho e branco que acentua as diagonais e dissolve a rigidez solene da arquitetura. O mesmo piso se prolonga nas amplas áreas de circulação social da casa, que envolvem os cômodos como galerias cobertas (loggias), fechadas por portas de correr de vidro. Nas salas de estar e de jantar, o piso de mosaico é substituído por tábuas de madeira corrida, material também presente nos móveis da biblioteca, decorada em estilo inglês. Na sala íntima, as paredes e o piso são revestidos por ladrilhos hidráulicos e azulejos portugueses azuis e brancos, criando um efeito decorativo sinestésico que contrasta com a brancura dominante da casa. Decididamente, o uso variado de materiais nobres reforça as surpresas no percurso de visitação à casa, criando um efeito próximo daquilo que Le Corbusier definiu como promenade architecturale.

A água é também um elemento importante na criação da ambiência da casa, aparecendo na fonte do pátio, na piscina do jardim e no espelho d’água situado entre a sala de jantar e a ala de serviço, arrematado por um mural sinuoso de azulejos representando lavadeiras, feito por Burle Marx.

Se o mestre Lucio Costa, no projeto para os edifícios do Parque Guinle (1943-1952), também no Rio de Janeiro, já havia demonstrado a possibilidade de uma perfeita adequação entre um léxico moderno – corpos lineares, pilotis, superfícies envidraçadas, brise-soleil – e referências históricas e vernaculares – treliças e cobogós –, Olavo Redig de Campos prolonga aqui os seus ensinamentos, adaptando-os, no entanto, a um vocabulário mais luxuoso. Vem daí o gigantismo dos módulos de elementos vazados que utiliza (blocos de concreto pintados de branco), que se distanciam da função original de sombreamento e discrição, e assumem uma feição eminen­temente decorativa, associada à monumentalidade.

Se o projeto moderno em arquitetura buscou, em linhas gerais, a produção de standards, rumo a uma tipologia pro­gressivamente anônima e coletiva – daí a sua abstração geométrica –, a casa do embaixador Walther Moreira Salles na Gávea, ao contrário, utiliza-se dessa linguagem em prol de uma formali­zação singular e, mais do que isso, extremamente pessoal. O sinal mais evidente disso são as maçanetas das portas, moldadas todas segundo a pegada única do seu proprietário. Mas, em que pese a espe­cificidade particularista do programa e das soluções encontradas nesse caso, é preciso lembrar que o desvio da norma funcionalista foi uma das grandes marcas da arquitetura moderna brasileira, ocasionando tanto as duras críticas de Max Bill ao “irracionalismo” dessa produção,4 quanto o sincero lamento de Walter Gropius diante de obras como a casa de Oscar Niemeyer em Canoas (1952), que, apesar de muito bela, em sua opinião, infelizmente não poderia ser multiplicada.5 Assim, por diversas razões, a residência Moreira Salles também nasce com status de obra única. Mas o seu porte e aspecto palaciano deram-lhe maleabilidade, permitindo a sua sobrevida, em novos tempos, como instituto cultural.6

Guilherme Wisnik é arquiteto.

Notas

1. A residência Raimundo Ottoni de Castro Maya, atual Museu Chácara do Céu, é uma antiga chácara que foi redesenhada segundo uma linguagem modernista em 1954 por Wladimir Alves de Souza, no bairro de Santa Teresa.

2. “Esta casa, sem dúvida a mais luxuosa das mostradas neste livro, é um exemplo de um programa cada vez mais raro nos dias de hoje: o palacete, destinado não só a abrigar a família, mas também a grandes e frequentes recepções.” Mindlin, Henrique. Arquitetura moderna no Brasil. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999, p. 69 (a edição original é de 1956).

3. Ver França, Renata Reinhoefer. “Arquitetura cifrada: a casa da Gávea de Walther Moreira Salles”. Disponível em: www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.104/84. Segundo a autora, essa informação foi confirmada por Antônio Fernando De Franceschi em entrevista telefônica.

4. Ver Bill, Max. “O arquiteto, a arquitetura, a sociedade”. In: Xavier, Alberto (org.). Depoimento de uma geração. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

5. Sobre isso, diz Niemeyer: “O Gropius esteve aqui. Um arquiteto medíocre, mas ele era professor, era inteligente e tal, conversava, era instruído, falava bem. Mas ele foi lá ver a minha casa das Canoas, e quando saiu disse pra mim: ‘Olha, a sua casa é muito bonita, mas não é multiplicável’. Mas que burrice fantástica! Era um terreno sinuoso, eu não podia procurar um terreno igual. Então você vê como eles pensavam errado, esse pessoal da Bauhaus. O Le Corbusier é que teve a coragem de dizer: ‘É mediocridade ativa, não sabem nada, só querem criar regras’. Depois todo mundo tem que seguir… Eu sou o único a esculhambar a Bauhaus, ficam com medo de dizer que é uma merda.” Niemeyer, Oscar. In: Wisnik, Guilherme (org.). O risco: Lucio Costa e a utopia moderna. Rio de Janeiro: Bang Bang Filmes, 2003, p. 120.

6. De 1995 a 1999, depois de 15 anos sem uso, a casa passou por um rigoroso processo de adaptação para abrigar a sede do IMS. Ver: Dutra, Maria Luiza e menezes, Walter Arruda de. “Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro: projeto e obra de restauro, reforma e adaptação”. Comunicação apresentada ao Docomomo. Disponível em: www.docomomo.org.br.

 

 

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