Pixinguinha

Gênio incontestável da música brasileira, o compositor, instrumentista, arranjador e maestro Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, tem seu arquivo pessoal sob a guarda do Instituto Moreira Salles desde 2000, por acordo direto com sua família. O acervo Pixinguinha é composto por documentos pessoais, medalhas, troféus, álbuns com recortes de jornal, centenas de fotos, roupas, registros de memória oral realizados por seu filho Alfredo da Rocha Vianna Neto e a flauta utilizada durante muitos anos pelo músico. Embora tudo isso tenha grande valor documental, o núcleo mais importante – e ainda passível de revelar novas facetas do imenso talento de Pixinguinha – é um lote de aproximadamente mil conjuntos de partituras com arranjos feitos por ele. Digitalizadas e catalogadas, essas partituras vêm sendo estudadas por músicos que dominam tanto o choro quanto a linguagem da música formal.

Alfredo da Rocha Vianna Filho nasceu no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro, em 23 de abril de 1897, filho de Alfredo da Rocha Vianna e Raimunda Maria da Conceição. Seu pai, funcionário dos correios, era também flautista amador e promovia reuniões musicais em sua casa, às quais compareciam renomados chorões da época. O menino teria recebido da avó africana ou de uma prima chamada Eurídice o apelido Pizindim (cujo significado seria “menino bom”). Há quem acredite que o nome Pixinguinha seja derivado da mistura desse apelido com “Bexiguinha”, pois, quando criança, teve a face marcada pela varíola (chamada popularmente de bexiga).

Ainda garoto, foi iniciado no cavaquinho por seus irmãos Léo e Henrique. Em pouco tempo, passou a acompanhar seu pai nos bailes. Por volta de 1908, Pixinguinha compôs sua primeira música, o choro Lata de leite. Seu primeiro professor de música foi César Borges Leitão, colega de trabalho de seu pai, mas seu aperfeiçoamento na flauta deu-se por meio de Irineu Batina, na época diretor de harmonia do rancho carnavalesco Filhas da Jardineira. Na orquestra do rancho, Pixinguinha conheceu dois amigos que o acompanhariam até o fim da vida: João Machado Guedes, o João da Bahiana, e Ernesto dos Santos, o Donga.

Irineu também levou Pixinguinha para tocar flauta em outro conjunto que comandava, o Choro Carioca. Em 1911, o grupo gravou as músicas Nhonhô em sarilho, Nininha, Daineia, São João debaixo d’água, Salve e Isto não é vida. No mesmo ano, Pixinguinha estreou no teatro, no lugar do conceituado flautista Antônio Maria Passos, na peça Morreu o Neves.

No ano seguinte, às vésperas de completar 15 anos, Pixinguinha se tornou diretor da orquestra do rancho Paladinos Japoneses, além de tomar parte no Trio Suburbano. Sua primeira composição editada foi o tango Dominante, gravadoem 1915 pelo Bloco dos Parafusos. Na mesma época, o Choro Carioca gravou duas composições do músico, Carne assada e Não tem nome, e, em 1917, a Odeon lançou em disco os maxixes Morro do Pinto e Morro da Favela e os clássicos Sofres porque queres e Rosa.

Em 1919, passou a se apresentar no Cinema Palais, local frequentado pela classe alta carioca. Pixinguinha era o flautista de um grupo do qual também faziam parte Donga, Otávio Vianna (China), Raul Palmieri, Nelson Alves, Jacob Palmieri, José Alves de Lima (Zezé) e Luiz de Oliveira (ou Luiz Pinto), os Oito Batutas. Apesar das críticas pelas roupas que usavam, pelas músicas que tocavam e por haver quatro negros entre os integrantes, o público lotava as apresentações dos Batutas, e nomes de prestígio iam assisti-los, como Rui Barbosa e Ernesto Nazareth. Naquele mesmo ano, a Odeon lançou em disco seis músicas com o Grupo do “Pechinguinha”, sendo três de autoria do próprio: Oito Batutas, Os dois que se gostam e Nostalgia ao luar. Ainda em 1919, Pixinguinha compôs uma de suas obras-primas: o choro Um a zero.

O sucesso levou os Oito Batutas a uma turnê nacional e internacional entre 1919 e 1922, ano em que o conjunto se apresentou com estrondoso sucesso em Paris e Buenos Aires. Ainda em 1922, os Oito Batutas participaram da primeira transmissão de rádio feita no Brasil.

Em 1924, estreou no Teatro São José a peça Não te esqueças de mim, musicada por Pixinguinha. Dois anos mais tarde, passou a integrar a Companhia Negra de Revistas, criada pelo cômico De Chocolat e pelo português Jaime Silva.

O nome de Pixinguinha aparecia constantemente como intérprete nos rótulos das gravadoras Odeon e, posteriormente, Parlophon: Pixinguinha e Conjunto, Orquestra Típica Pixinguinha, Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, Orquestra Típica Oito Batutas etc. Duas das suas composições mais famosas foram lançadas em disco em 1928: Lamentos e Carinhoso.

Em 1929, Pixinguinha tornou-se arranjador da gravadora Victor. Seu trabalho foi um divisor de águas na música brasileira. Ele abrasileirou as orquestrações e criou introduções magníficas para músicas suas e de outros compositores.

Durante toda a década de 1930, Pixinguinha continuou suas atividades na indústria fonográfica, nas casas noturnas e nas emissoras de rádio (um mercado cada vez mais em expansão). Em 1931, surgiu o Grupo da Guarda Velha, capitaneado por Pixinguinha, Donga e João da Bahiana.

Em outubro de 1936, o compositor João de Barro, o Braguinha, pôs letra em Carinhoso para uma apresentação beneficente. Em 1937, Orlando Silva gravou a música em um disco que trazia no outro lado a valsa Rosa (com versos de Otávio de Souza). Tornaram-se dois clássicos instantâneos da música popular brasileira.

Na década de 1940, passou por dificuldades financeiras e trocou a flauta pelo saxofone tenor. Ajudado pelo flautista Benedito Lacerda, formou com ele uma parceria que rendeu 34 discos e algumas das melhores gravações de choro de todos os tempos.

Em 1945, o radialista Almirante levou Pixinguinha para a Rádio Nacional e, no ano seguinte, os dois foram para a Rádio Tupi. Entre janeiro de 1947 e março de 1952, produziram na emissora um programa que marcou a trajetória de ambos: O Pessoal da Velha Guarda. Almirante era redator e apresentador da atração, que tinha, na parte musical, Pixinguinha, responsável pelos arranjos, todos inéditos, e Benedito Lacerda com seu conjunto, depois substituído pelo regional de Rogério Guimarães.

Foi homenageado com o I Festival da Velha Guarda, em 1954, em São Paulo, irradiado pela Rádio Record no exato dia do seu aniversário, 23 de abril, com apresentação de Almirante e participação de grandes nomes, como Donga, João da Bahiana, Caninha, Patrício Teixeira, Benedito Lacerda, Lúcio Rangel, Sérgio Porto e o jovem Baden Powell. Em 1955, foi lançado, pela Sinter, o histórico disco Velha Guarda, com Pixinguinha, Donga, João da Bahiana, Bide do Estácio, Almirante e J. Cascata, entre outros. O sucesso foi tão grande que, em menos de um ano, foram gravados mais dois lps: Carnaval da Velha Guarda e Festival da Velha Guarda.

Em 1961, Vinicius de Moraes colocou versos em Lamentos (que virou Lamento) e em outras músicas de Pixinguinha, como Samba fúnebre e Mundo melhor. Na década de 1960, Pixinguinha recebeu muitas homenagens, como a exposição e o concerto que celebraram seus 70 anos, promovidos pelo Museu da Imagem e do Som no Rio de Janeiro em 1968. O concerto reuniu nomes como Jacob do Bandolim, Radamés Gnattali e o conjunto Época de Ouro. No mesmo ano, gravou o LP Gente da antiga, com Clementina de Jesus e João da Bahiana.

Depois de alguns anos com dificuldades financeiras e problemas de saúde, Pixinguinha morreu aos 75 anos, em 17 de fevereiro de 1973, na igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, durante o batizado do filho de um amigo.

 

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