José Ramos Tinhorão

José Ramos nasceu em Santos (SP), mudando-se para o Rio aos nove anos. Começou a se interessar por música popular quando tinha entre 10 e 12 anos. Aos 20, tornou-se estudante da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Sua vida como jornalista freelancer teve início em 1951, na Revista da Semana. Assinava J. Ramos e fazia reportagens em parceria com o amigo e fotógrafo Humberto Franceschi. Em 1952, com 24 anos, ainda estudante de direito e de jornalismo, foi levado por Armando Nogueira – outro colega de faculdade – para o Diário Carioca como copidesque. Foi nesse jornal que José Ramos ganhou o apelido Tinhorão – nome de uma planta ornamental tóxica.

Sua primeira matéria assinada, sobre o Natal, foi publicada em 25 de dezembro. Levou um susto quando leu: “Reportagem de J. Ramos Tinhorão para o Diário Carioca”. Procurou Pompeu de Souza, chefe de redação, e fez a queixa: “Pompeu, você assinou com meu apelido de redação? Eu tinha colocado J. Ramos…”. Ao que o outro retrucou, com uma gargalhada: “J. Ramos é nome de ladrão de galinha, tem um monte na lista telefônica. Tinhorão vai ser só você”.

O jovem redator ficou no Diário Carioca até o final de 1958, quando se transferiu, a convite de Janio de Freitas, para o Jornal do Brasil, em que passou a escrever no suplemento dominical. No início de 1959, fez, em parceria com Nilson Lage, uma matéria sobre música de Carnaval.

Nessa época, virou personagem do escritor Nelson Rodrigues, que, entre agosto de 1959 e fevereiro de 1960, publicou, na Última Hora, o folhetim Asfalto selvagem. O Tinhorão imaginado por Nelson era, nas palavras de Ruy Castro – biógrafo do dramaturgo –, “um jovem sátiro a bordo de um calhambeque e mantendo um caderninho onde anotava os nomes de suas conquistas”: moças que ele iludia com a promessa de se tornarem capa da revista O Cruzeiro – e entre elas estava a jovem Silene, filha da protagonista Engraçadinha.

O Caderno B (suplemento cultural do JB) surgiu em 1960, criado por Reynaldo Jardim, que teve a ideia de pedir a Tinhorão que escrevesse uma série sobre a história do samba, nos moldes do que Luiz Orlando Carneiro havia feito com o jazz para o mesmo caderno. O jovem redator argumentou que a série sobre o jazz havia sido possível porque Orlando possuía uma vasta bibliografia sobre o assunto, mas sobre samba não existia praticamente nada. Jardim, então, sugeriu a ele que falasse com Sérgio Cabral, colaborador do Caderno B que conhecia todo o mundo das escolas de samba. Sugeriu ainda que fossem feitas entrevistas com essas pessoas.

Nasceu, assim, o Tinhorão pesquisador da música popular. Dessas entrevistas (feitas com Ismael Silva, Alcebíades Barcellos – o Bide do Estácio –, Donga, Pixinguinha, Almirante e muitos outros) surgiu a série Primeiras lições de samba – uma tentativa de história da música popular no Rio, publicada na página ocupada por Sérgio Cabral. Em 1962, alguns artigos dessa série foram incluídos no livro Música popular: um tema em debate. Editado pela Saga, tornou-se a obra de Tinhorão mais reeditada até os dias de hoje. No mesmo ano, começou a publicar, também no Jornal do Brasil, suas Novas contribuições à bibliografia da MPB, feitas a partir de material avulso recolhido por ele em diversos periódicos.

Durante os anos 1960, escreveu – sempre fundamentado no materialismo histórico, abordagem metodológica proposta por Marx – artigos e colunas para diversos veículos de comunicação, além do próprio JB: Tribuna da Imprensa, Jornal dos Sports, Espírito Santo Agora, Jornal Rural (de Juiz de Fora), Singra, entre outros. Nessa época, a fama de polêmico e maldito já havia começado. Tinhorão, desde o início, foi ferrenho detrator da bossa nova, colecionando, por conta disso, vários desafetos.

Tendo saído do JB em 1963, passou pelas redações do Correio da Manhã e da TV Excelsior, da qual foi demitido – sempre fez questão de frisar a data – em 31 de março de 1964, dia do golpe militar. Foi então para a TV Rio e, em 1966, foi contratado como redator do Jornal da Globo. Paralelamente ao jornalismo, começou a fazer pesquisas para outros órgãos, tornando-se colaborador da revista de cultura do Ministério da Educação e da revista Senhor.

Voltou para São Paulo em 1968, graças a um convite para trabalhar na nascente revista Veja, na qual criou as seções Gente e Datas. Em 1969, lançou o livro O samba agora vai: a farsa da música popular no exterior; em seguida vieram Música popular, teatro e cinema (1972) e Pequena história da música popular: da modinha à canção de protesto (1974).

Convidado pela sucursal paulista do Jornal do Brasil para colaborar novamente com o Caderno B, em 1974, passou a escrever sobre os produtos da indústria cultural da música brasileira, o que o levou a colecionar ainda mais desafetos. Um dos folclores em torno do seu nome surgiu nesse período. Certa vez, escreveu – de maneira um tanto jocosa – sobre um LP que Hermínio Bello de Carvalho gravou como cantor para a Odeon. Hermínio e Tom Jobim (um dos artistas mais duramente atacados por Tinhorão, desde o surgimento da bossa nova) elaboraram uma vingança: ao serem entrevistados, declararam que viam o crítico apenas como uma planta herbácea da família das Aráceas, que costumavam “regar” diariamente com as próprias urinas.

Foi colaborador do Pasquim até 1989. Nos anos 1990, largou de vez o jornalismo e passou a se dedicar integralmente à pesquisa histórica e à produção de livros. Fez pós-graduação em história social pela Universidade de São Paulo, em 1999. De sua dissertação nasceu o livro A imprensa carnavalesca no Brasil: um panorama da linguagem cômica, editado em 2000.

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