José Medeiros

A obra completa do piauiense José Medeiros, que registra em cerca de 20 mil negativos um momento fundador do fotojornalismo brasileiro, foi adquirida pelo Instituto Moreira Salles em agosto de 2005. Dos 25 aos 40 anos, Medeiros integrou a equipe da revista O Cruzeiro, então a maior do país, cujo departamento de fotografia, chefiado pelo francês Jean Manzon, revolucionava o tratamento dado à imagem na imprensa nacional. Mais tarde, a partir dos anos 1960, dedicou-se à fotografia de cinema, tornando-se, segundo Glauber Rocha, “o único que sabia fazer uma luz brasileira” – a mesma luz “ambiente, uma coisa mais natural” (palavras de Medeiros) que banha suas cenas de rua e seus retratos de famosos e anônimos, pobres e ricos, moças sorridentes em Copacabana e índios no Xingu, foliões no carnaval e internas num manicômio, entre outros extremos da vida brasileira que registrou em suas reportagens.

Nascido em Teresina, José Araújo de Medeiros interessou-se pelo ofício ainda na infância. Tinha apenas 12 anos quando seu pai, fotógrafo amador, ensinou-lhe as técnicas de revelação em laboratório. Chegando ao Rio de Janeiro em 1939, começou a colaborar com as revistas Tabu e Rio. Em 1946, foi contratado por O Cruzeiro, dando início a um trabalho que o levaria a percorrer todo o país e viajar à Europa, ao Equador, aos Estados Unidos e à África. Ao deixar a revista, em 1962, fundou em sociedade com Flávio Damm e Yedo Mendonça a agência Image.

No cinema, ao qual se dedicou a partir de 1965, quando assinou a fotografia de A falecida, de Leon Hirszman, Medeiros desenvolveu uma segunda carreira de sucesso, que inclui títulos como Xica da Silva, de Cacá Diegues, A Rainha Diaba, de Antonio Carlos Fontoura, e Memórias do cárcere, de Nelson Pereira dos Santos. Em 1980, chegou a dirigir seu próprio longa-metragem, chamado Parceiros da aventura. Foi também professor por dois anos da Escuela Internacional de Cine y Televisión de Santo Antonio de los Baños, em Cuba, no final dos anos 1980, pouco antes de morrer em Áquila, na Itália.

O Rio de Janeiro dos anos 1940-50, cuja vida glamurosa se desenrolava, sobretudo numa Copacabana cuja avenida Atlântica ainda não fora duplicada, era um dos grandes temas do repórter fotográfico José Medeiros. Com acesso às festas mais elegantes, documentou um estilo de vida – o chamado café society – que a transferência da capital para Brasília não demoraria a extinguir. Documentou também os bastidores da política e da cultura nacional, fotografando artistas, músicos e escritores de sucesso. No entanto, foi em viagens pelo país que produziu alguns de seus ensaios mais marcantes.

O mais famoso deles foi realizado em 1951, num terreiro de candomblé em Salvador, e documentava em imagens de forte dramaticidade o ritual de iniciação, com sacrifício de animais, de jovens filhas de santo. Escoltada por texto de Arlindo Silva, a fotorreportagem foi publicada com estardalhaço em O Cruzeiro sob o título “As noivas dos deuses sanguinários”. O sensacionalismo da edição não fazia justiça ao trabalho de Medeiros, que seis anos depois relançou o material em versão ampliada no pioneiro livro Candomblé, o primeiro de fotografias sobre essa religião no Brasil – desta vez com o acompanhamento de sóbrias legendas sem crédito, provavelmente escritas por ele mesmo. Candomblé foi relançado em 2011 pelo ims em edição crítica, com o acréscimo de 13 fotografias que não constavam da edição original, escolhidas entre as 236 imagens sobre o tema que constam do acervo do fotógrafo.

Outros conjuntos de destaque deixados por Medeiros incluem diversos ensaios realizados em tribos indígenas do Mato Grosso e do Pará, entre 1949 e 1957, e a cobertura – com especial atenção a cenas de arquibancada – da traumática derrota da seleção brasileira na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. 

Em 1986, a Funarte realizou no Rio de Janeiro a mostra retrospectiva “José Medeiros, 50 anos de Fotografia”, que também transformou em livro.

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