Humberto Franceschi

Escritor, pesquisador, colecionador e fotógrafo, Humberto Franceschi é considerado uma das maiores autoridades no campo da tecnologia do som. Durante décadas, dividiu-se entre pesquisas sobre a história da indústria fonográfica brasileira – que resultaram em dois livros essenciais – e a busca por discos de 78 rpm. A coleção, iniciada como um passatempo, acabou por se tornar um dos maiores acervos sonoros do país, com gravações que abrangem toda a primeira metade do século XX.

O acervo fonográfico de Humberto Franceschi, com 12 mil itens, foi vendido ao Instituto Moreira Salles pelo próprio colecionador no início dos anos 2000. Somado ao de José Ramos Tinhorão, transforma o IMS no depositário de um tesouro de valor quase incalculável para qualquer pessoa ou instituição que deseje pesquisar as décadas de formação de nossa música popular. Contém gravações de todos os principais compositores, instrumentistas e cantores da música popular brasileira da primeira metade do século XX, incluindo itens raríssimos: os primeiros discos lançados no país pela Casa Edison, os únicos registros de Ernesto Nazareth (sozinho ao piano e acompanhando o flautista Pedro de Alcântara), alguns dos poucos deixados pelo violonista João Pernambuco e pelo flautista Pattapio Silva e as primeiras gravações de Pixinguinha, entre outras joias que compõem o acervo.

Humberto Moraes Franceschi nasceu em 1930, em uma família ligada às tradições musicais brasileiras. Seu tio-avô – que não chegou a conhecer, pois nasceu 11 anos após seu falecimento – foi o escritor e folclorista Mello Moraes Filho, autor de Festas e tradições populares do Brasil e letrista do lundu A mulata, com melodia de Xisto Bahia. Seu avô, Antero Pereira da Silva Moraes – primo e cunhado de Mello Moraes –, era pai dos seresteiros Henrique de Mello Moraes e Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, este último o pai do futuro poeta e diplomata Vinicius de Moraes, primo de Humberto.

Na residência do velho Antero – primeiro na Gávea, depois em Botafogo –, no início dos anos 1930, costumava haver, às quintas-feiras e aos domingos, saraus com os violões de Henrique, Clodoaldo, Mozart de Araújo, Newton Teixeira e Cândido das Neves (afilhado de casamento de Henrique), onde sobressaíam as modinhas e as canções dos tempos do Império. Eram frequentadores assíduos Lúcio Rangel (e seu sobrinho Sergio Porto, o futuro Stanislaw Ponte Preta), Bororó, Dilermando Reis, Orestes Barbosa, Rubem Braga e Paulo Tapajós, entre outros. O jovem Vinicius, beirando os 20 anos, também costumava estar presente a essas reuniões, assim como o menino Humberto.

A paixão por discos começou ainda na infância, quando herdou do avô Antero alguns exemplares. Colega de escola de uma das netas de Fred Figner – dono da Casa Edison –, acabou tendo contato direto com as filhas do comerciante, o que facilitou seu acesso a documentos e informações que seriam bastante úteis anos mais tarde, quando ele escreveria dois livros fundamentais sobre a história da indústria fonográfica em nossa terra: Registro sonoro por meios mecânicos no Brasil (Studio HMF, 1984) e A Casa Edison e seu tempo (Sarapuí, 2002).

Em 1949, cursando a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, fez amizade com José Ramos (futuramente conhecido apenas por Tinhorão), que também se destacaria como um dos maiores colecionadores e pesquisadores da música popular brasileira. Ambos iriam se reencontrar na década seguinte, trabalhando nas redações da Revista da Semana, do Diário Carioca e do Jornal do Brasil, ele como fotógrafo e Tinhorão como jornalista e crítico musical.

Manteve, na década de 1950, um estúdio fotográfico em parceria com o irmão José Moraes Franceschi. O primeiro trabalho da dupla foi em 1952, a convite do primo Vinicius de Moraes: o levantamento das obras do escultor mineiro Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Juntos, participaram dos primeiros números da Revista Módulo, fundada em 1955 por Oscar Niemeyer, e produziram as fotos do livro A Floresta da Tijuca (Bloch, 1967).

Sua casa na rua da Passagem, em Botafogo, era, já no início dos anos 1950, ponto de encontro de amantes da música popular, como o colega de faculdade Tinhorão. Costumava receber também compositores e intérpretes famosos, como Ismael Silva, Bide (Alcebíades Barcellos), Nelson Cavaquinho, que sempre levava o violão, e o ainda menino (de 14 anos) Baden Powell, já um instrumentista de talento.

Com o fim dos sebos que frequentava, tornou-se, assim como o amigo Lúcio Rangel, cliente das barraquinhas da passagem subterrânea da avenida Almirante Barroso (perto do Tabuleiro da Baiana) e, mais tarde, das situadas no cruzamento da rua Buenos Aires com a avenida Passos. O que seria de início apenas um passatempo virou uma fonte indispensável para pesquisadores de nossa música, pois, na década de 1940, todas as matrizes originais dos discos foram vendidas como sucata (menos uma, da Casa Edison, dada de presente ao próprio Franceschi por uma das filhas de Figner). Tudo o que restou foram os discos, hoje encontrados, basicamente, em coleções particulares como a dele. Sem elas, a memória musical produzida em nosso país nesse período teria desaparecido completamente.

Em 2010, o Instituto Moreira Salles publicou Samba de sambar do Estácio – 1928 a 1931, de Humberto M. Franceschi, resultado de 20 anos de pesquisa. A obra vem acompanhada de um DVD multimídia contendo uma centena de gravações originais de músicas de autores ligados ao bairro Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, onde o samba começou a tomar forma no início do século XX. Traz ainda depoimentos de remanescentes daquela época e uma rara iconografia, com fotos e um mapa interativo mostrando como era a região em 1935. No lançamento do livro, na sede carioca do IMS, em novembro de 2010, o público presenciou um bate-papo descontraído entre Franceschi e José Ramos Tinhorão, autor do prefácio.

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