Chiquinha Gonzaga

Compositora, maestrina e pianista, Chiquinha Gonzaga é tida até hoje não só como um dos grandes nomes da música brasileira dos séculos XIX e XX, mas como uma personagem marcante e atuante que, oriunda de uma sociedade patriarcal, abriu caminhos e rompeu barreiras em diversos segmentos, tornando-se pioneira na defesa dos direitos autorais de músicos e autores teatrais.

Francisca Edwiges Neves Gonzaga nasceu em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro. Era a terceira dos nove filhos de José Basileu Neves Gonzaga, militar, e Rosa de Lima Maria, filha alforriada da escrava mestiça Tomásia.

A menina Chiquinha, como era comum à época, aprendeu as primeiras letras em casa, estudou piano e apresentou sua primeira composição aos 11 anos de idade. Era a Canção dos pastores, com versos do irmão Juca.

Aos 16 anos, em 1863, casou-se com Jacinto Ribeiro do Amaral, proprietário de terras e de gado na Ilha do Governador. Como dote, ganhou do pai um piano. Ainda com 16 anos, tornou-se mãe: seu filho João Gualberto nasceu em 1864. No ano seguinte, nasceu Maria do Patrocínio. A maternidade não afastou Chiquinha do piano, para desgosto do marido.

Jacinto havia se tornado coproprietário do navio São Paulo, que foi fretado pelo governo para transporte na Guerra do Paraguai. Como comandante da Marinha Mercante, começou a viajar constantemente para o Sul, levando a esposa de temperamento rebelde, para afastá-la do piano. Chiquinha viu cenas violentas na guerra e presenciou maus-tratos aos negros alforriados (os “voluntários da pátria”, que, no entanto, eram tratados como se ainda fossem escravos), o que a deixou revoltada. Para acalmar os ânimos, o marido conseguiu um violão a bordo. As brigas do casal, porém, fizeram com que o marido exigisse dela uma decisão: ou ele ou a música.

O casamento terminou, a família Neves Gonzaga declarou o nome de Chiquinha impronunciável e fechou-lhe de vez as portas. Maria continuou sendo criada pelos avós; João Gualberto, pelo pai; e Hilário, o caçula, foi morar com uma tia paterna.

Com apenas 23 anos, em 1870, Chiquinha, separada e mãe de três filhos, apaixonou-se pelo jovem engenheiro João Batista de Carvalho, três anos mais velho. Chamado para trabalhar na Estrada de Ferro Mogiana, Carvalhinho foi morar com ela no interior de Minas Gerais, onde viveram em acampamentos e canteiros de obras. Em 1875, após a inauguração da estrada, o casal retornou ao Rio. Chiquinha, nessa época, estava grávida da filha Alice, mas ela e João Batista se separaram em 1876, tendo a criança ficado sob a guarda do pai. No ano seguinte, julgada por crime de abandono de lar e adultério, Francisca Gonzaga foi condenada “à separação perpétua de seu marido Jacinto Ribeiro do Amaral”, tornando-se uma mulher divorciada – um século antes de o divórcio passar a ser um direito civil no Brasil.

Aos 29 anos, ela se viu obrigada a trabalhar para sobreviver. Foi então que o nome Chiquinha Gonzaga começou a nascer para a música popular. Fez do piano seu sustento, tornando-se professora, pianista de conjuntos musicais e compositora. Em 1877, foi publicada sua polca Atraente, que fez sucesso imediato. Nesse mesmo período, passou a fazer parte do Choro Carioca, grupo liderado por Joaquim Antônio Callado.

O comportamento atrevido de Chiquinha – que não apenas colocava títulos de cunho sensual em suas músicas (Atraente, Sedutor), mas circulava pelas rodas boêmias, fazendo música em qualquer ambiente, convivendo com chorões e notívagos de toda espécie, vestindo-se na contramão do que ditava a moda – acabou por deixá-la mal-afamada, principalmente entre 1877 e 1885, quando começou a ser mais admirada por causa de seu trabalho como maestrina no teatro de revista.

Ela debutou como compositora teatral (a primeira do país) em 17 de janeiro de 1885, com a opereta A corte na roça, de Palhares Ribeiro. O libretista e os atores foram criticados pela imprensa, mas a música foi unanimemente aclamada, inclusive pelo público. Chiquinha, em pouco tempo, tornou-se a profissional mais requisitada pelo teatro de revista.

Aos 37 anos, foi finalmente reconhecida como maestrina. Tornou-se avó aos 42, com o nascimento de Valquíria, filha de João Gualberto (com quem ela mantinha um contato mais estreito). Em 1891, suas filhas se casaram, longe dos seus olhos.

No início de 1899, Chiquinha morava no Andaraí, onde ficava a sede do cordão Rosa de Ouro. Numa tarde, durante um ensaio da agremiação, sentou-se ao piano e, sem maiores pretensões, fez nascer aquela que é considerada a primeira canção carnavalesca brasileira: Ó abre alas. Por meio dessa música, ajudou a fixar a marcha-rancho como gênero próprio da folia carioca.

Foi também em 1899, aos 51 anos, que conheceu o português João Batista Fernandes Lage, de 16 anos, com quem viveria um romance. Em 1902, durante visita ao país natal do rapaz (era a primeira viagem dela para a Europa), Chiquinha começou a apresentá-lo como filho, história que manteve quando retornaram ao Brasil, em meio aos comentários por vezes maldosos que as pessoas faziam ao seu redor.

Na noite de 26 de outubro de 1914, o maxixe (a dança excomungada, o ritmo amoral) entrou pela porta da frente no Palácio do Catete, residência do chefe da República, por meio das mãos de outra mulher revolucionária: Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes da Fonseca. Numa recepção nos salões do palácio, à qual compareceram diplomatas e representantes da elite carioca, ela tocou, ao violão (instrumento ainda marginalizado na época), o Corta-jaca da maestrina Francisca Gonzaga.

Às vésperas de completar 70 anos, em setembro de 1917, Chiquinha tornou-se uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, ao lado de nomes como Oscar Guanabarino, Viriato Corrêa, Gastão Tojeiro, Bastos Tigre, Raul Pederneiras e Oduvaldo Vianna. Desde 1913, ela liderava a campanha pela defesa dos direitos autorais.

Chiquinha Gonzaga morreu no dia 28 de fevereiro de 1935, quinta-feira, antevéspera do Carnaval, aos 87 anos.

 

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