Servo da linha elegante

Mànya Millen

Como cartunista, caricaturista, chargista e ilustrador, o carioca J. Carlos botou sua arte a serviço da notícia e da crônica visual em 49 anos ininterruptos de trabalho, quase todos vividos em redações de jornais e revistas. Durante esse tempo, ele foi acima de tudo um “servo da linha e dos recursos que a fazem soberana na página”, como aponta o caricaturista Cássio Loredano, um dos curadores de J. Carlos: originais, exposição que o Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro inaugura em sua Galeria Marc Ferrez dia 25, às 18h. Para iluminar o caminho inteligente e elegante da linha na obra ímpar de um dos mais completos artistas brasileiros, mestre de um inconfundível traço art déco, o trio de curadores – completado por Julia Kovensky, coordenadora de iconografia do IMS, e Paulo Roberto Pires – selecionou 290 trabalhos entre os mil originais que integram a coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha, filho de J. Carlos, abrigada no IMS desde 2015. Muitos deles trazem anotações e indicações para a gráfica, de tamanho ou preenchimento de cores, feitas à mão feitas pelo próprio artista. Ao lado das obras já publicadas, os originais ajudam a revelar o trajeto do desenho entre a criação e sua impressão nas páginas.

Julia Kovensky conta que o recorte da mostra foi decidido depois de longas conversas entre os curadores. “Muitas exposições já foram feitas sobre J. Carlos, mas o que temos aqui, e que não existe em outros lugares, é um conjunto expressivo de desenho originais. Decidimos usar o que temos de diferente para ir puxando assuntos importantes na compreensão da produção dele”, diz ela. “Ao mesmo tempo em que o traço dele é muito familiar para as pessoas, está no imaginário de todos, elas não sabem como ele trabalhava, onde trabalhava. Então não tivemos medo do didatismo, no bom sentido, de ser generoso com o público, mostrando o que é uma novidade para ele e também apresentando quem foi J.Carlos”. E lembrando que esta é a maior reunião de originais do desenhista já mostrada numa exposição, Paulo Roberto Pires fala da importância de se vê-los “não pelo fetiche puro e simples, mas para entender um pouco como trabalha um artista gráfico, o caminho da prancheta para a página. Ao vê-los você vê a obra e os bastidores da obra”.

A exposição é dividida em quatro seções e a primeira é justamente a que trata de forma mais explícita do pensamento gráfico, embora as marcas do processo de criação do artista esteja em todas elas. “O trabalho de um artista gráfico só está completo na banca. E J.Carlos sempre trabalhou direto na redação, perto da oficina, dando indicações muito claras do que deveria ser feito em sua obra”, conta Loredano, autor e organizador de seis livros sobre o prolífico artista, que fez aproximadamente 50 mil desenhos ao longo de sua vida. Produzia de forma impressionante, às vezes publicando trabalhos distintos, esmerados e riquíssimos em detalhes, em dois jornais no mesmo dia.


Desenho para publicação em Careta, 15.8.1942
Grafite, nanquim e guache sobre papel, 12,4 x 10,9 cm
Coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha / IMS

Estão presentes nessa primeira seção, por exemplo, as belas capitulares, vinhetas e diagramações que J.Carlos criava para embalar os textos literários. “É um dos capítulos mais bonitos da exposição. Todo escritor publicava na imprensa e ele fazia a roupa visual de tudo”, conta Loredano, lembrando que entre 1922 e 1931 J.Carlos foi chefe de arte de todas as revistas da empresa O Malho, como Careta (onde entrou em 1908, ilustrando a primeira capa do semanário), Para Todos, Fon-Fon e Almanaque Tico-Tico, entre outras publicações que fazem parte da mostra. “Ele foi um pioneiro em quase tudo”.

Nascido em 1884, em Botafogo, José Carlos de Brito e Cunha foi um observador privilegiado da primeira metade do século XX. Publicou seu primeiro desenho em 1902, no semanário Tagarela, quando a República brasileira era uma jovenzinha de 13 anos, e em sua vasta obra pintou a política, a sociedade e os costumes no país com as tintas do humor, da ironia e da indignação, como se vê nas seções “Brasil” e “Segunda Guerra”.  Em “Brasil” estão misturados um pouco de carnaval – um dos temas favoritos do artista, responsável por saborosas e divertidas imagens da folia –; um pouco da vida doméstica e urbana, com figuras icônicas como as graciosas melindrosas; e a política, claro, restrita ao período entre 1945 e 1950, entre os governos de Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas. “Ele e Getúlio eram inimigos, porque ele, como jornalista, era vítima da censura. E a curiosidade é que ele morreu na véspera da reeleição de Getúlio, em 1950”, conta Loredano. “J.Carlos morreu em 2 de outubro, e Getúlio foi eleito dia 3. E foi enterrado no mesmo dia porque havia um medo de ter confusão nas ruas no dia da eleição”.

Em “Brasil”, o público pode conferir tanto as linhas e palavras ferinas dedicadas a políticos e acontecimentos sociais, como também um trabalho de cunho quase pedagógico na construção e fortalecimento de símbolos nacionais. “J.Carlos era um sujeito conservador, um bom brasileiro, e no início da República a imprensa e a escola eram os únicos veículos de propaganda do novo regime. Então há na obra dele também uma linha muito educativa”, pontua Loredano. Em alguns momentos, o artista chegou a agregar uma bandeirinha do Brasil à sua assinatura. E num dos originais da mostra, por exemplo, feito para os jovens leitores de O Tico-Tico, J.Carlos faz uma síntese da História do país, desde o Descobrimento, em apenas 12 quadros.


Desenho para publicação em Careta, 30.9.1950
Grafite, nanquim, aquarela e guache sobre papel, 35,9 x 31,5 cm
Coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha / IMS

Já em “Segunda Guerra”, o homem que acompanhou com sua arte o primeiro conflito mundial (1914-1918), a guerra civil espanhola (1936-1939) e o começo da Guerra Fria mostra sua incrível antena para captar a balança do poder no mundo e seus reflexos no Brasil. Isso sem botar o pé fora do Rio, como lembra Loredano. “É óbvio que na época havia uma troca muito grande, ele devia ler muita coisa, a intelligentsia vivia dentro das redações, algo que não acontece hoje, e o talento dele plasma essas opiniões”, observa Loredano. “De qualquer forma é impressionante ver como ele era preciso, como intuía os acontecimentos”. Num dos textos que acompanham a exposição, que se revela no conjunto uma breve e eficiente aula de História, os curadores lembram a importância de se ter naquele momento, numa revista tão popular como a Careta, um artista antinazista com o talento de J. Carlos.

A quarta e última parte da mostra traz um J.Carlos não jornalista, mas nem por isso menos importante e saboroso: é a vez do artista que desenhou para as crianças. No espaço, que acabou sendo o maior da exposição, há 40 histórias em quadrinhos selecionadas entre as que ele publicou semanalmente em O Tico-Tico, entre 1921 e 1923, assinando como Nicolao. As aventuras do gorducho Goiabada, da menina Lamparina e do atrapalhado Carrapicho e seu filho Jujuba ganhavam formatos inusitados, redondos ou ovais, em mais um exemplo da ousadia gráfica do artista, como observa Loredano. A cereja do bolo da seção é o livro Minha babá, reunião de 21 histórias escritas e ilustradas por J.Carlos, publicado em 1935 pela Biblioteca Infantil do Tico-Tico. A exposição traz a folha de rosto e as aberturas de 20 dos textos, com os desenhos em cores exuberantes e o caprichado trabalho das capitulares iniciando cada história.

Loredano diz que, diferentemente de outros desenhistas, J.Carlos nunca se encantou com o mundo das belas artes. “Teve essa inteligência que escapa nos outros, percebeu que não era um pintor, sua força estava na página”, diz, explicando que ao longo da vida, ele foi limpando cada vez mais seus traços, procurando sempre a elegância da linha. Mais do que isso, afirma que J.Carlos não conheceu decadência. “Algumas soluções de desenhos vão se repetindo, mas em nenhum momento ele perdeu a força, a graça”.


Coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha / IMS

Em coerência com sua intensa produção e paixão pelo trabalho, o fim de J.Carlos começou a se desenhar sobre a prancheta na redação da revista Careta, onde voltara a trabalhar como ilustrador em 1935. Nela ele sofreu o AVC que o mataria três dias depois, em 2 de outubro de 1950, aos 66 anos, deixando viúva e os filhos Elza, Lourdes, Lúcia (a única viva hoje), Luiz Carlos e Eduardo Augusto. Herói municipal e nacional, reconhecido em todo o território, virou nome de rua no Jardim Botânico, de escola pública em Irajá, e ganhou um busto na Fonte da Saudade, na praça que leva o nome de seu irmão, o médico Henrique Waldemar de Brito e Cunha.

 “J.Carlos transcende o universo dos desenhistas, dos caricaturistas. Foi um sujeito tão grandioso que conseguiu chegar a mais gente, tornou-se icônico, essa foi a grande diferença”, finaliza Julia. “Sua obra causa impacto até hoje, as pessoas reconhecem o traço, a estética de uma era específica, a belle époque, que ele conseguiu associar ao trabalho dele. Aqui ele foi único, o original”.

 

J. Carlos: originais
 
Curadoria: Cássio Loredano, Julia Kovensky e Paulo Roberto Pires
 
Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro
 
Rua Marquês de São Vicente, 476, Gávea
 
Tel.: (21) 3284-7400
 
Abertura: dia 25 de março às 18h
 
Visitação: de 26 de março a 22 de outubro
 
De terça a domingo, das 11h às 20h
 
Entrada franca
 
 
Visitas mediadas para grupos: agendar pelo telefone (21) 3284-7485
 
ou educativo.rj@ims.com.br